Você realmente acredita em todas as promessas que aparecem em anúncios? E quantas vezes vendedores tentaram te convencer a levar produtos bem abaixo do esperado?
“O vendedor sincero” foi a tarefa 4 da prova escrita do Celpe-Bras de outubro de 2025.

| Imagine que você seja o vendedor retratado na crônica abaixo, publicada no jornal Zero Hora. Escreva uma outra crônica, para ser publicada no mesmo jornal, narrando, do ponto de vista do vendedor, a sua versão dos fatos e se posicionando a respeito deles. |
Atenção ao enunciado!! O que pedem a você, qual é a forma (gênero textual) que você dará à sua tarefa, para quem ela será dirigida e qual é o objetivo da mensagem.
- emissor ou locutor⇒ quem você é? ⇒vendedor
- interlocutores ⇒ leitores do jornal Zero Hora
- gênero textual ⇒ crônica
- finalidade do texto ⇒assumir o ponto de vista do vendedor, reescrevendo a sua versão dos fatos e se posicionando a respeito deles.
Não deixe de ler 👉 Gêneros textuais das provas do Celpe-Bras
Vamos ao texto
O vendedor sincero
Se um dia tiver uma empresa, é ele que eu quero contratar.
CLAUDIA TAJES
A loja estava vazia, tanto que o único vendedor de plantão naquele domingo demorou a me perceber no balcão, entretido com um joguinho de celular. Na verdade, não percebeu. Eu é que chamei por ele, e não foi uma vez só. Quando enfim rolou a interação, vi que era muito jovem, um menino com barba nenhuma e o colarinho fechado até o último botão, sem mais o que fazer senão jogar Free Fire na loja às moscas. Às 17 horas, faltando três para fechar, ele me disse que eu era a primeira pessoa a cruzar o umbral naquele domingo de sol.
Eu precisava de um fone de ouvido. Junto com os pés de meia, os óculos e os guarda-chuvas, o fone de ouvido deve ser o objeto que mais some no mundo. Do nada desaparece, esquecido em algum banco, engolido pelo sofá, enroscado sabe-se onde.
O fone de ouvido que o jovem vendedor tinha para oferecer era daqueles de enfiar no pobre do pavilhão auditivo. Desconfortável, mas azar. Pelo menos estaria no bolso para qualquer eventualidade. Se não tem tu, vai tu mesmo, grande lema.
– A senhora conhece essa marca?
– Claro, é a famosa marca diabo.
– Pois então. Isso aí não vai durar três dias.
Eram mais de cinco horas e ninguém havia entrado na loja. Tudo indicava que a venda do fone seria a única naquele domingo de sol. Não que o estabelecimento, lotado de bugigangas, não tivesse os seus encantos. No meio de tanta tralha, qualquer consumidor poderia encontrar uma utilidade – ou uma futilidade, vá lá.
– E tem algum que dure mais?
– Pior que não. Mas esse aí não vale a pena. É jogar dinheiro no lixo.
A gente se acostuma a vestir uma calça que ficou o ó do borogodó e ouvir da vendedora: “Nossa, como caiu bem”. E quantas vezes leva gato por lebre, e com a garantia do dono? Foi porque eu precisava, mas foi muito mais pela sinceridade do rapaz. Comprei o fone de ouvido e mais um pano de prato com um elefante em duas patas recitando uma passagem bíblica. Não existe pano de prato laico hoje em dia. Também entrei no site da loja e deixei um elogio para o funcionário.
Se um dia tiver uma empresa, é ele que eu quero contratar.
Faz cinco dias e o fone continua funcionando.
https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/claudia-tajes/noticia/2019/09/o-vendedor-sincero-ck0gzi80502a101tg3k0rg45y.html
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Se um dia tiver uma empresa, é ele que eu quero contratar.
Na sua opinião, será que uma empresa funcionaria com vendedores tão sinceros? O que você acha?
Não deixe de ler este artigo: Sinceridade ou sincericídio.
E assista também: Um vendedor super sincero
Vocabulário da crônica “O vendedor sincero”
O vocabulário é informal, com muitas expressões da linguagem falada. Quais poderiam apresentar dificuldade?
- (vendedor de) plantão – trabalho realizado fora dos horários normais: noturno, feriados, domingos.
- rolou – no sentido do texto, e informalmente, significa aconteceu, ocorreu. No sentido literal, significa girar, rodar.
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Colarinho - Free Fire – é um jogo eletrônico gratuito de tiro e sobrevivência para dispositivos móveis.
- às moscas – lugar vazio, deserto ou com poucas pessoas.
- engolido pelo sofá – sentido literário. Ficou “escondido” dentro do sofá.
- Desconfortável, mas azar – É incômodo, mas fazer o quê/É desconfortável, mas paciência.
- Se não tem tu, vai tu mesmo – Quando não há a opção ideal, a gente se conforma com o que tem.
- marca diabo – produto de qualidade duvidosa, desconhecido ou de baixo custo.
- bugigangas – objetos de pouco valor e sem utilidade.
- tralha – coisa sem valor.
- jogar dinheiro no lixo – desperdiçar o dinheiro.
- ó do borogodó – pode significar que ficou espetacular, show de bola, ou que ficou horrível. No caso, supomos que a calça não ficou bem, mas a funcionária, para vender, usou a expressão como um elogio para convencer o freguês.
- gato por lebre – ser enganado
Quais são as características de uma crônica?
- Tema cotidiano – A crônica parte de situações simples do dia a dia, mas que fazem a gente refletir, pensar.
- Linguagem – simples, leve e com tom e expressões informais.
- Brevidade – textos curtos e leitura rápida.
- Narrador – geralmente é a personagem que vive ou observa a experiência.
- Interpretação – o cronista dá sua opinião e transmite sensações. (o que o comprador sentiu com a sinceridade do vendedor?).
- Humor – a maioria das crônicas são relatadas com humor e/ou ironia. Pode haver crônicas sérias.
- Final – uma observação, uma reflexão.
- Temporalidade – são fatos que ocorrem hoje, ou em tempos próximos do momento atual
Estrutura e organização da crônica
- Título
- Introdução – “A loja estava vazia, tanto que o único vendedor de plantão naquele domingo demorou a me perceber no balcão…”
Apresenta o cenário (loja vazia, domingo de sol, fim do expediente).
Introduz as personagens (a narradora e o jovem vendedor).
Cria o tom coloquial e observador, típico da crônica.
Situa o leitor numa cena cotidiana e aparentemente banal.
- Desenvolvimento – “Eu precisava de um fone de ouvido…”
“…o jovem vendedor tinha para oferecer era daqueles de enfiar no pobre do pavilhão auditivo.”
Surge o conflito simples: a necessidade de comprar um fone. A narradora lembra-se de objetos que somem, com resignação.
O diálogo continua e a narrativa avança lentamente, construindo expectativa.
- Clímax ou ponto de virada – é quando ocorre algo inesperado “– A senhora conhece essa marca?
– Claro, é a famosa marca diabo.
– Pois então. Isso aí não vai durar três dias.”
E ocorre a quebra da expectativa – O vendedor age contra o próprio interesse, sendo sincero e desaconselhando a compra.
E a frase que reforça “– Mas esse aí não vale a pena. É jogar dinheiro no lixo.”
Neste ponto do texto é redefinido o sentido da crônica: não se trata da compra de um objeto, mas sobre ética, honestidade e surpresa. O que justifica o título: “O vendedor sincero”
- Conclusão – a compradora justifica a compra, mesmo sabendo que adquiria um produto de má qualidade: – “Foi porque eu precisava, mas foi muito mais pela sinceridade do rapaz.”
“Se um dia tiver uma empresa, é ele que eu quero contratar.”
“Faz cinco dias e o fone continua funcionando.”
A narradora fecha a reflexão, valorizando a honestidade do vendedor.
Como poderia começar esta tarefa
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A cliente que todo vendedor gostaria de atender Em um domingo de sol, em que todos estão na praia ou na piscina, quem poderia entrar na loja e comprar algo? -Acho que vai ser um dia muito chato. Não vou poder usar as estratégias de marketing que aprendi no cursinho da semana passada. Mas, olha o que aconteceu. Entrou uma mulher… |
🌟Nossa opinião 🌟
Preparamos alunos para o Celpe-Bras há mais de 20 anos e, com essa experiência, percebemos que alguns gêneros textuais são desafiadores até mesmo para falantes nativos, com formação escolar avançada. Nem todos têm facilidade para escrever — e, menos ainda, para produzir uma crônica.
Em uma situação de prova, o participante pode acabar perdendo tempo tentando imaginar algo criativo ou engraçado, enquanto aspectos realmente importantes para avaliar a competência comunicativa do estrangeiro acabam ficando em segundo plano. Soma-se a isso o fato de que a crônica costuma aparecer na 4ª tarefa do exame escrito, quando o candidato já está cansado e ansioso para terminar.
Por essa razão, acreditamos que os elaboradores das tarefas do Celpe-Bras deveriam evitar esse gênero textual em avaliações destinadas a estrangeiros.
Muitos alunos excelentes, com domínio sólido da língua portuguesa, acabam recebendo um nível inferior ao esperado justamente por se depararem com esse tipo de exigência.
Vai prestar o exame? O material de provas anteriores pode ajudar bastante. BOA SORTE! 🍀
Já prestou e esse foi o tema da sua prova? Comente como se saiu e se está de acordo que este gênero textual é complicado para um participante estrangeiro. E até para muitos brasileiros…
Dúvidas ou sugestões?
foneticando.portugues@gmail.com
